Análises Sociais · Psicologia Social

A eleição também se decide no inconsciente

Uma leitura psicanalítica sobre o desejo, a autoridade e as transformações do eleitor brasileiro.

Por Renan Sposito Beltrami · Psicólogo e especialista em Psicologia Social · 6 de outubro de 2026

O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou diante do país um cenário que merece ser analisado para além dos números. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 45,16%. É natural que analistas políticos recorram às pesquisas, aos indicadores econômicos, à avaliação do governo e às estratégias de comunicação para compreender esses resultados. Todos esses elementos são importantes, mas existe uma dimensão frequentemente negligenciada: o lugar simbólico que as lideranças ocupam no imaginário coletivo e, principalmente, as transformações subjetivas daqueles que as elegem.

Sou psicólogo e especialista em Psicologia Social. E considero que compreender a atual disputa eleitoral exige olhar não apenas para aquilo que a população deseja receber, mas para aquilo que ela acredita ter se tornado. Parece uma distinção pequena, mas talvez seja justamente aí que esteja uma das questões centrais desta eleição.

Flávio Bolsonaro conseguiu reunir dois elementos importantes. O primeiro é a identificação de uma parcela do eleitorado com o antipetismo, sentimento que antecede sua própria candidatura. O segundo é a representação de uma marca política consolidada, capaz de mobilizar afetos, produzir identificação e oferecer respostas relativamente simples a insatisfações complexas. É o básico de determinada lógica de comunicação: identifico a dor e apresento o remédio. Entretanto, reduzir esse fenômeno ao marketing eleitoral seria ignorar algo mais profundo. Afinal, por que determinadas figuras políticas conseguem despertar entusiasmo, enquanto outras, mesmo apresentando realizações concretas, encontram dificuldades para produzir a mesma identificação?

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicado em 1921, Freud apresenta contribuições importantes para compreender os processos de identificação coletiva e a relação dos indivíduos com suas lideranças. O líder pode ocupar simbolicamente uma posição de idealização, tornando-se depositário de expectativas, desejos e fantasias que ultrapassam suas características pessoais. O indivíduo não se identifica apenas com aquilo que o líder promete realizar, mas também com aquilo que ele representa subjetivamente. Em outras palavras, uma liderança política pode funcionar como expressão de conteúdos que o próprio sujeito encontra dificuldades para reconhecer, organizar ou verbalizar.

A história oferece exemplos importantes dessa dinâmica, embora nenhum fenômeno político deva ser explicado exclusivamente pela Psicologia. Na Alemanha do período entre guerras, a humilhação nacional, a instabilidade econômica e o ressentimento decorrente da derrota na Primeira Guerra Mundial, agravados pelo Tratado de Versalhes e, posteriormente, pela Grande Depressão, contribuíram para um ambiente de profunda vulnerabilidade social. Nesse cenário, uma liderança autoritária conseguiu instrumentalizar sentimentos de desamparo, frustração e desejo de restauração nacional. A propaganda nazista transformou angústias coletivas em promessas de pertencimento, grandeza e recuperação da honra. Evidentemente, não se trata de estabelecer equivalências entre aquele regime e as lideranças contemporâneas, tampouco de reduzir a ascensão do nazismo a processos psicológicos. O que interessa compreender é como determinados discursos conseguem oferecer representação simbólica àquilo que uma coletividade sente, mas nem sempre consegue elaborar.

Para aprofundar essa questão, vale recuperar outro conceito psicanalítico: a função paterna. Na tradição freudiana, a castração simbólica remete, de maneira bastante simplificada, ao encontro do sujeito com os limites de seus desejos e com a impossibilidade de satisfação absoluta. A figura paterna, compreendida aqui como função simbólica e não necessariamente como pai biológico, representa uma das formas pelas quais a lei e a interdição se apresentam ao indivíduo. Ao longo do desenvolvimento, essas experiências participam da constituição do superego, instância relacionada à internalização de proibições, exigências e ideais. Trata-se de um processo complexo, mas sua compreensão ajuda a pensar por que certas lideranças são investidas de autoridade e passam a representar, para determinados grupos, aquilo que deveria organizar, proteger ou impor limites.

É nesse contexto que personagens como Renan Santos e Pablo Marçal se tornam interessantes para uma leitura psicossocial. Seus estilos de comunicação, embora distintos, apresentam uma característica comum: a disposição para verbalizar conteúdos provocativos, confrontar convenções e expressar, muitas vezes sem os filtros habituais do discurso institucional, ressentimentos e fantasias que encontram ressonância em parte do público. Numa leitura simbólica, esses discursos podem mobilizar conteúdos mais próximos da dimensão pulsional, produzindo fascínio justamente por dizerem aquilo que muitos talvez desejassem dizer, mas não dizem. Isso não significa que seus espectadores necessariamente concordem com tudo ou estejam dispostos a lhes entregar poder político. A identificação emocional e a confiança para governar são fenômenos distintos.

Há ainda outro aspecto relevante. Essas figuras frequentemente assumem uma posição de autoridade confrontadora, quase como um pai que distribui palmadas simbólicas em adultos, repreende, exige disciplina e promete soluções categóricas para problemas que não compreende necessariamente em toda a sua complexidade. O fascínio não decorre apenas da agressividade ou da eloquência, mas da possibilidade de encontrar externamente uma autoridade capaz de organizar aquilo que subjetivamente parece desorganizado. Não se trata de afirmar que seus seguidores possuam determinada estrutura psíquica, mas de reconhecer que discursos de força e comando podem responder a necessidades coletivas de segurança, ordem e reconhecimento. No fundo, vendem aquilo que a carência deseja adquirir.

Entretanto, a liderança autoritária não é a única figura capaz de ocupar esse lugar simbólico. Voltemos ao primeiro governo Lula. Naquele momento, uma parcela expressiva da população brasileira encontrava no presidente a representação de um pai acolhedor, provedor e próximo de sua realidade. Lula conhecia a fome, a pobreza, as dificuldades do trabalhador e a experiência de exclusão social. Sua própria trajetória funcionava como elemento de identificação com milhões de brasileiros que desejavam não apenas melhores condições materiais, mas também reconhecimento e dignidade. Naquele contexto, o líder parecia traduzir a dor de seus filhos e oferecer algo que havia muito tempo se encontrava enfraquecido: esperança.

Durante os anos seguintes, o crescimento econômico, a ampliação do consumo e as transformações sociais alimentaram a percepção de que o país finalmente avançava. Em 2009, a revista The Economist estampou uma capa emblemática, com o Cristo Redentor decolando como um foguete, simbolizando um Brasil que parecia ocupar um novo lugar no cenário internacional. O país, naquele imaginário de ascensão, parecia ter se transformado no gigante que acordou. Mas existe uma consequência subjetiva importante quando uma população passa a experimentar novas possibilidades de consumo, mobilidade social e autonomia: suas expectativas também se transformam. Aqueles filhos que antes desejavam fundamentalmente proteção começavam a experimentar, ainda que simbolicamente, a possibilidade de caminhar com as próprias pernas.

A chegada de Dilma Rousseff representou uma mudança nessa configuração simbólica. Sua imagem pública estava mais associada à autoridade administrativa, ao comando e à gestão, posições que, numa leitura psicanalítica, podem ser aproximadas da dimensão fálica enquanto representação simbólica de poder, sem qualquer conotação depreciativa relacionada ao gênero. O problema é que a sociedade brasileira já não era exatamente a mesma. Parte da população havia experimentado novas condições de vida e desenvolvido expectativas que ultrapassavam as conquistas anteriores. As manifestações de 2013, seguidas por um período de crescente instabilidade política e pelo impeachment de 2016, não podem ser atribuídas a uma única causa, muito menos a uma suposta regressão psicológica coletiva. Entretanto, permitem pensar numa ruptura entre expectativas sociais, experiências concretas e formas de representação política.

Recorrendo à metáfora do desenvolvimento infantil, poderíamos dizer que uma criança que começa a descobrir sua autonomia dificilmente aceitará, sem algum conflito, retornar à posição anterior de dependência. Quando aquilo que antes representava proteção passa a ser percebido como limitação, a relação com a autoridade também se modifica. A insatisfação pode assumir formas de contestação, rejeição e busca por referências diferentes. Na política, essas manifestações encontram explicações econômicas, históricas e institucionais, mas também podem ser examinadas simbolicamente como expressões de uma relação transformada entre a sociedade e suas lideranças.

Nesse ambiente, a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018 também pode ser interpretada, entre outras dimensões, como a emergência de uma figura paterna de natureza distinta. Não mais o pai predominantemente acolhedor, mas aquele que promete restaurar a ordem, impor limites e corrigir, pela força de sua autoridade, aquilo que apresenta como desorganização da casa. Sua comunicação confrontadora e a valorização de atributos como disciplina e autoridade encontraram ressonância em segmentos da população que buscavam respostas para sentimentos de insegurança, frustração e descrença nas instituições. É importante observar que a identificação com esse discurso não pressupõe necessariamente fragilidade individual, mas pode estar associada à experiência social de perda de controle, à necessidade de pertencimento e à expectativa de que alguém seja capaz de reorganizar uma realidade percebida como ameaçadora.

Anos depois, Lula retornou à Presidência, em 2023, carregando novamente o simbolismo daquele pai que havia se ausentado e finalmente voltava para casa. Para muitos, seu retorno representava a recuperação de uma esperança conhecida, a possibilidade de reencontrar uma experiência política anteriormente associada a conquistas e estabilidade. Contudo, aqui surge uma questão que considero central: embora o pai tenha voltado, seus filhos não permaneceram necessariamente os mesmos.

A comunicação governamental pode apresentar indicadores positivos, programas sociais e realizações concretas, mas existe uma distância importante entre aquilo que se anuncia e aquilo que o indivíduo reconhece em sua própria experiência. É como observar uma vitrine repleta de produtos desejáveis e perceber que nem tudo aquilo está efetivamente ao seu alcance. A propaganda apresenta conquistas, enquanto o sujeito as confronta com seu cotidiano, suas frustrações e suas novas aspirações. Quando há desencontro entre essas duas dimensões, o reconhecimento pode ceder lugar à decepção.

E a decepção possui um componente subjetivo particularmente importante: ela não decorre apenas da ausência daquilo que desejamos, mas também da distância entre aquilo que esperávamos reencontrar e aquilo que efetivamente encontramos. O pai voltou, mas a experiência já não é a mesma. Talvez porque ele tenha mudado. Talvez porque as circunstâncias sejam outras. Mas, principalmente, porque uma parcela daqueles filhos também se transformou.

É nesse ponto que acredito existir uma questão ainda insuficientemente explorada na comunicação política contemporânea. Uma parcela da população continua encontrando identificação na figura de um Estado protetor e provedor, mas essa necessidade não exclui o desejo de autonomia, reconhecimento e ascensão individual. O sujeito que necessita de políticas sociais também pode desejar empreender, enriquecer, conquistar independência financeira e deixar de ser reconhecido exclusivamente pela condição de vulnerabilidade. Não há necessariamente contradição entre essas aspirações. A proteção pode ser precisamente aquilo que permite a construção de autonomia.

Ocorre que determinados discursos políticos parecem compreender melhor essa transformação do imaginário social. Ao enfatizarem empreendedorismo, liberdade econômica, enriquecimento e protagonismo individual, oferecem não apenas propostas, mas uma identificação com aquilo que o sujeito gostaria de se tornar. Não vendem somente soluções materiais. Vendem uma representação de futuro na qual o indivíduo ocupa uma posição mais ativa, mais independente e, simbolicamente, mais adulta. É justamente nesse território que a linguagem de figuras como Marçal e de diferentes correntes liberais e conservadoras encontra parte de sua força. Isso não significa que suas propostas necessariamente produzam a autonomia anunciada, mas que o símbolo apresentado possui capacidade de mobilização.

Talvez um dos equívocos da comunicação política seja imaginar que basta recuperar uma narrativa que funcionou anteriormente para produzir os mesmos resultados. A sociedade não permanece imóvel enquanto seus governantes se sucedem. As experiências acumuladas modificam suas expectativas, suas referências de autoridade e até mesmo aquilo que ela reconhece como promessa de liberdade. O eleitor que antes desejava alguém que lhe estendesse a mão pode continuar valorizando esse gesto, mas talvez agora espere também ser reconhecido como alguém capaz de caminhar sozinho.

Naturalmente, nenhuma interpretação psicanalítica seria suficiente para explicar a complexidade de uma eleição. O voto envolve interesses materiais, valores morais, posicionamentos ideológicos, vínculos religiosos, experiências sociais e avaliações concretas de governo. A leitura simbólica não substitui esses fatores. Ela acrescenta uma dimensão importante: a política não mobiliza somente necessidades objetivas, mas também ideais, identificações, afetos e representações de si.

Por isso, compreender o eleitorado exige mais do que identificar aquilo que lhe falta. Exige reconhecer o lugar que ele acredita ocupar na sociedade e aquele que deseja conquistar. Uma liderança pode continuar oferecendo proteção enquanto o indivíduo espera, sobretudo, reconhecimento de sua capacidade. Pode insistir na linguagem do cuidado quando o sujeito está reivindicando autonomia. E pode descobrir, tarde demais, que a dificuldade de comunicação não está apenas nas propostas apresentadas, mas na posição simbólica reservada àqueles a quem pretende representar.

Talvez a pergunta mais importante da atual disputa eleitoral não seja simplesmente “o que vamos oferecer ao povo?”, mas algo anterior e psicologicamente mais profundo: quem esse povo acredita que se tornou e como deseja ser tratado agora?

Afinal, a política pode até recuperar antigos líderes, discursos e promessas. O que ela não consegue é fazer com que uma sociedade retorne, intacta, ao lugar subjetivo que ocupava no passado.

Referências factuais do artigoOs resultados do primeiro turno de 2026 citados no texto correspondem à apuração divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 5 de outubro de 2026. A referência à capa “Brazil Takes Off”, da The Economist, corresponde à edição de novembro de 2009. O artigo apresenta uma leitura interpretativa de Psicologia Social e Psicanálise e não pretende reduzir fenômenos políticos complexos a uma única explicação.

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